Metodologia

Considerações sobre as Projeções

A conjuntura internacional e doméstica trouxe grandes incertezas para a projeção futura de diversos setores do agronegócio. No âmbito externo, o conflito comercial entre os Estados Unidos e a China provocou uma escalada de tarifas de vários produtos do setor e trouxe mudanças significativas na precificação das commodities transacionadas entre os países. O caso mais emblemático é o da soja, em que a taxação imposta pelos chineses, os maiores importadores mundiais, levou a uma queda nos preços do produto americano e uma elevação no prêmio pago pela oleaginosa originada em outros países. O Brasil foi o principal beneficiado, pois é o maior exportador mundial do produto e a quebra da safra Argentina reduziu sua oferta nesta safra.

Outros produtos como as carnes também foram beneficiados. Além disso, a valorização da moeda americana também tirou competitividade do país. Ainda não sabemos como esta situação se desenvolverá no futuro e, aparentemente, uma solução ainda está longe de ser alcançada, mas, se o conflito entre os dois países for resolvido, haverá novamente uma mudança significativa na precificação dos produtos atingidos pelo aumento da taxação.

A situação interna do Brasil também contribuiu para a insegurança futura. A greve dos caminhoneiros e o posterior estabelecimento de uma tabela de fretes muito acima do mercado trouxe prejuízos significativos aos produtores e isto ainda não foi solucionado. A dúvida em relação aos preços futuros do frete dificultou a venda futura dos produtos agrícolas, pois não havia segurança em relação à precificação dos mesmos.

Do ponto de vista da economia, utilizamos como cenário-base uma perspectiva de que, apesar de lenta, haverá uma retomada mais consistente do crescimento em 2019. Consideramos também que não ocorrerá uma interrupção abrupta do crescimento mundial. Existem riscos de uma desaceleração em relação aos patamares atuais, mas a demanda por alimentos deverá continuar crescendo, mesmo que em taxas inferiores ao observado nos últimos anos.

Dando continuidade aos números anteriores do Outlook Fiesp, esta edição tem o intuito de trazer elementos para discussões acerca dos diversos setores envolvidos com o agronegócio e com isso auxiliar a identificação de gargalos e a elaboração de propostas para o futuro do setor, possibilitando antever as ações necessárias diante do crescimento esperado.

O modelo de projeções do agronegócio vem sendo aperfeiçoado ao longo de mais de uma década e estabelece um balanço de oferta e demanda mundiais que mantenha consistência entre as principais economias produtoras e consumidoras de alimentos do mundo. A consistência é avaliada a partir das relações estoque/uso que devem manter o mercado estabilizado a longo prazo.

No caso das commodities consideradas, o modelo de projeção da produção brasileira, parte de um balanço mundial da produção e consumo de alimentos, no qual a demanda de cada país é estabelecida a partir das expectativas de aumento da população e do crescimento da renda per capita, combinados às elasticidades-renda dos alimentos em cada um dos países. As previsões de renda utilizadas são as divulgadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e da população, pela Organização das Nações Unidas (ONU). No caso brasileiro, as estimativas de crescimento da economia foram feitas pela MB Associados, baseada em seu modelo macroeconômico de consistência para o País.

Do ponto de vista da oferta, a produção dos alimentos é projetada com base na tendência da produtividade e da área disponível em cada um dos principais produtores. O Brasil é variável-chave para o fechamento do balanço internacional, dado que é uma das poucas regiões em que ainda é possível obter um ganho de produtividade, aliado ao aumento da área agrícola, ao contrário, por exemplo, dos EUA, onde a produção cresce a partir de ganhos restritos de produtividade ou de menor produção de uma determinada commodity em detrimento de outra, pelo remanejamento de uma área produtiva relativamente fixa.

Obtida a produção brasileira necessária para que a relação estoque/consumo mundial se mantenha em um patamar em que os preços justifiquem o crescimento da oferta global, as áreas demandadas para alcançar tais produções são estimadas a partir da curva projetada de produtividade para cada uma das commodities agrícolas em cada uma das regiões brasileiras.

Uma peculiaridade no caso do etanol é que o consumo interno brasileiro é derivado de um modelo de crescimento e depreciação da frota de veículos em função do PIB, tendo como variável exógena a participação dos veículos Flex Fuel nas vendas totais.

Para a celulose, o aumento da área plantada com florestas vem dos novos investimentos em fábricas programados pelo setor, que, a longo prazo, atendem à demanda para exportação e para o mercado interno da celulose produzida no País.

As áreas e produtividades esperadas são as variáveis de entrada no modelo de demanda de fertilizantes da agricultura brasileira. Associando essa produtividade com a curva de resposta à adubação, estabelece-se a necessidade de NPK por hectare para cada cultivo. Multiplicando a área total de cada cultura pela necessidade de NPK, chega-se ao consumo de NPK para as lavouras. Adicionando a esse consumo o de fertilizantes para as pastagens, o reflorestamento e a adubação de base para abertura de novas áreas, totaliza-se a demanda total de NPK para o Brasil até 2028.

A partir dos projetos de investimento no aumento da capacidade instalada de produção de fertilizantes no País, estima-se a oferta doméstica futura de nutrientes, tendo como pressuposto um nível histórico de utilização da capacidade instalada. Com a oferta desses nutrientes por região, o balanço entre demanda e oferta é calculado, obtendo-se a necessidade de importação em 2028.

É importante destacar que, como a maior parte dos projetos de novas plantas de fertilizantes continuam postergados ou estão suspensos, continua o aumento significativo da dependência externa no suprimento da necessidade brasileira de fertilizantes no horizonte projetado. Ademais, nesta edição, foi criado um cenário alternativo que adiciona eventuais plantas que podem entrar em operação ao longo dos anos da projeção e, mesmo com a produção dessas novas fábricas, a necessidade de importação seguirá praticamente inalterada.

Vale ressaltar, como observação para todo este trabalho, que as projeções adotam pressupostos que podem ser modificados ao longo do período considerado. Eventos climáticos mais severos, abertura de mercados, modificação do status sanitário e redução ou aumento do protecionismo internacional são apenas algumas das variáveis que podem afetar as expectativas para determinado produto.

Em alguns produtos como arroz, feijão, trigo e leite, a produção é primordialmente direcionada pela demanda do mercado doméstico, dado que o País não se configura como um grande player no mercado internacional desses itens.

Devido à possibilidade de alteração nas produções e estimativas de demanda em função dos fatores de risco inerentes ao setor agrícola ou de mudanças nas expectativas macroeconômicas, as estimativas podem ser revisadas de forma dinâmica, caso algum evento mais relevante signifique uma modificação importante das perspectivas para as commodities analisadas. As atualizações realizadas poderão ser acompanhadas nesse site.